domingo, 1 de maio de 2016

Experiência sensível em Truman.(sem spoilers)



É com a certeza de que esse texto estará absolutamente aquém da experiência vivida do cinema que suspiro e continuo escrevendo. Porque, certamente, nenhuma sintaxe dará conta de explicar que mecanismos produzem o efeito de um filme sobre um corpo, que o faz arrastar-se pelos corredores de um cinema após a exibição, olhos inchados, mãos que tremem e permanecer nesse estado por aproximadamente meia hora. Não há teoria complexa o bastante para compreender o fenômeno e, a essa altura dos acontecimentos, só consigo reconhecer que há mistérios na experiência sensível (que o cinema representa como ninguém) que não ouso decifrar, apenas vivenciar. Assim foi com o filme Truman, drama hispano-argentino de Ricardo Darin, que conta a história de um ator, condenado por um câncer terminal, que passa quatro dias com um amigo distante, Thomas, que veio visitá-lo. Enredo prosaico, nada original, alguns diriam. Mas está aí a beleza do filme. Truman é próximo demais, humano demais,seja em seus diálogos,seja na forma como nos oferece a simplicidade das relações profundas, dos afetos, onde as palavras são desnecessárias. É quase possível tocar os laços explícitos que se notam nos atores, o que me faz pensar em como teria sido essa preparação de atores. A química de Darin e Javier Câmara é evidente. Para além dos personagens, está inscrita na pele , no rosto e nos olhos dos dois...Em uma das sequências mais belas do filme, logo na chegada de Thomas(Javier Cámara),ao abrir a porta, Julian(Ricardo Darin) gasta uns bons minutos sorrindo para o amigo(e vice-versa), enquanto a câmera utiliza-se de um módico plano-contraplano...Nada mais é necessário para que fique claro ,logo de cara, a intimidade dos dois. Antes disso, o diretor Cesc Gray abusa da simetria em seus planos de abertura, utilizando-se de linhas diagonais e gastando à vontade as regras de composição de quadros, criando belas imagens. Mas o filme se sobrepõe a isso. É uma narrativa sobre relações humanas, suas potências e falhas, ou como somos irremediavelmente enganados pela sensação de que viveremos para sempre, na medida em que negociamos com dificuldade o tempo que nos resta por aqui. Muitas vezes somos surpreendidos pela brevidade desse tempo e o quanto em muitas situações negligenciamos nossos afetos em benefício de uma escolha, profissional ou afetiva, deixando de dizer o que realmente importa. Mas o filme de Darin não está ali para preencher de palavras a lacuna entre duas pessoas. Ao contrário. É no silêncio emocionado entre o eu e o outro que Gay torna sua narrativa mais bela. Quando os personagens se encontram, não são as palavras que preenchem o espaço, mas a falta delas.Há ali um reconhecer-se no outro,na inevitabilidade do desencontro e da separação, adultos que somos,sempre envolvidos em nosso brutal cotidiano.Truman não apresenta uma solução para o desencontro, ele o tensiona, o esgarça, para pontuar segundo a segundo a importância do afeto, nos ínfimos segundos onde ele acontece.O filme é uma mão estendida, em meio ao caos cotidiano, que se oferece a alguém que, sabemos,não estará lá para sempre...O que a narrativa nos diz é:esteja atento a esse breve momento de silêncio,onde duas pessoas, das mais diversas formas de afeto,olham uma para outra,reconhecem-se e dizem sim. E neste breve intervalo, cabe uma vida inteira.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Sobre cinema,narrativas e barbárie - Análise dos filmes Filho de Saul e Suíte Francesa( sem spoilers)







Escrito sob essa trilha sonora: Suite Francaise Rebulid - I Am Free



Existem coisas sobre as quais nunca falaremos o suficiente e o Holocausto, em minha opinião, sempre estará no topo dessa lista. Há ali tanta barbárie, tantas perguntas, tanto espanto, que jamais estaremos esgotados em nossos assombramentos.Por um desses acasos que a natureza cinéfila as vezes gera, me coube assistir, um após o outro, dois filmes sobre a temática da Segunda Guerra mundial, O Filho de Saul( Laszlo Nemes,2015)e Suíte Francesa(Saul Dibb, 2014). Não vou entrar inicialmente no mérito técnico de cada um, posto que ambos tenham escolhas narrativas distintas e paguem seu preço por isso. A começar, pela câmera.Enquanto em Saul, Nemes opta por empurrar o público no centro dos acontecimentos.colando sua lente ás costas do protagonista(com excelentes over sholders, diga-se de passagem) em Suíte, Dibb é delicado, diáfano em sua fotografia, optando por construir cada plano em um preciosismo de nuances, entre luzes e sombras. Por outro lado, se em Suíte há uma opção por destacar as relações e afetos entre os personagens, em Saul existe um esgarçamento da forma como cada elemento interage com o outro, sem espaço para sutilezas.Cada toque, cada palavra, tem a força de um soco que, ao mesmo tempo que atinge o personagem, chega até o público, sem tréguas. Contudo, embora ambos os diretores tracem caminhos distintos, cada filme exibe o indisfarçável tema, estejamos falando de uma história de amor ou não. Ao final de tudo, fala-se de barbárie.Não de qualquer uma, mas daquela que em apenas seis anos matou ao menos seis milhões de pessoas e deixou marcas em outros milhões até hoje.Parece incrível que, passadas décadas , ainda se possam criar novas narrativas para um mesmo tema, que não se esgota. Ao contrário. Se renova, posto que, em cada baú e em cada alma, ainda há histórias e impressões a serem expostas à luz.Ao que parece, ainda não choramos e nos lamentamos o suficiente e talvez nunca de fato o façamos em demasia. Talvez um dos motivos que fazem o holocausto (palavra que em sua origem define-se pela “queima total”,ou o sacrifício) tão “rico” de narrativas, esteja na definição da historiadora Beatriz Sarlo sobre memória.Para ela, a diversidade de relatos , associados à pesquisa documental, são o único caminho de pesquisa possível, onde o fundamental é compreender, mais do que somente lembrar. E, embora estejamos longe de entender a complexa perversidade que partiu em dois o “breve século XX”(HOBSBAWM, 1994), seguiremos tentando. Nesse caminho, a narrativa fílmica torna-se um poderoso aliado, pela força que alia imagens e sons e convoca cada célula do corpo a pensar e sentir junto com o que é exibido na tela.Porém, ao narrar a barbárie seria necessário ser explícito?Para Laszlo Nemes, não. Iniciando sua história com um foco apenas no protagonista, ele utiliza sua câmera com velocidade para representar um mergulho no inferno,onde prisioneiros aguardam a morte de dezenas de pessoas para recolher seus corpos, queimá-los e lavar a câmara de gás,aguardando novos ocupantes.E se a narração escrita choca,ela não é menos clara do que o filme. Apesar de concentrar-se nas expressões de Saul, o personagem principal, nas brechas deixadas pelo corpo do prisioneiro o diretor deixa ver braços,pernas,estendidos ao chão.Por vezes, apenas pés são suficientes para que a compreensão e o horror se façam.E quando o personagem está no chão, esfregando os dejetos humanos deixados na câmara, não há como fugir.Estamos ali também,de joelhos,ouvindo os gritos, as unhas a arranhar as paredes, os corpos a se chocarem e então,o silêncio. Nossos rostos então entram na câmara, a centímetros do chão, lavando, esfregando,para que a nova leva de vítimas não veja resquício das mortes anteriores e não perca as esperanças antes do tempo. Em nenhum momento o diretor de O filho de Saul dá trégua ao público.Ele o carrega,aos tropeções,por cada parte do campo de concentração, junto com Saul, na busca por um rabino que enterrasse seu filho. Sentimos em nossa pele o calor das fogueiras que se erguem, o cheiro dos corpos queimando, o som das metralhadoras e os prisioneiros, que se esbarram, se chocam, tentando fugir.Assim também tentamos.Voltamos nossos olhos em busca de um momento de afeto,de delicadeza,para poder respirar. Mas Nemes é implacável.Ele não se cansa de exterminar qualquer traço de humanidade, não dando fôlego nem a personagens nem ao público. Estamos, segundo ele, todos mortos.Não há salvação possível,quando permitimos a barbárie,potencializada em uma máquina burocrática e eficiente, que cria justificativas para os assassinatos que comete.Não há elemento atenuante, quando se pensa nas milhares de pessoas que,imersas em seu cotidiano, aceitaram o mal como uma banalidade,ou como algo alheio a si.Em cada ação há o peso de aceitar a morte do outro pela justificativa de não opor-se ao sistema e não correr o risco de morrer.Contudo, a arma que se aponta para o prisioneiro, está a um só tempo em nossas mãos e em nossa cabeça e é esse o grande mérito de Nemes.Sem atenuantes ou desculpas,sem trilha sonora.Apenas a barbárie. Já em Suíte francesa, a trilha sonora é uma da personagens principais, a escolha para acentuar as cores de outra história da Segunda Guerra Mundial.Na cidade francesa de Bussy,a população local é obrigada a hospedar oficiais do exército alemão. Assim inicia-se a história de amor entre Lucile, casada com um combatente francês desaparecido e Bruno, oficial da SS.É a música, que ambos tocam, o elemento de comunicação que atravessa o lugar social dos dois.Embora não tenha a força de O filho de Saul (que poucos filmes teriam, de fato),também em Suíte a barbárie é delineada.Há cenas de bombardeio, fuzilamento e selvageria. Mas,além da opção pelo romance, o diretor,Saul Dibb, tece as sutilezas da ocupação da cidade.Nas relações que vão sendo criadas a conveniência e a necessidade mudam papeis, levando moradores a se relacionarem (por vontade ou por obrigação) com os militares alemães.E se há um mérito no filme, é pelo esforço em fazer cada personagem pensar continuamente seu lugar social e as justificativas de seus atos.Afinal, em um cenário de guerra,qualquer ação pode desencadear consequências fatais para toda a comunidade.Contudo,o que de mais grave pode ocorrer é o esquecimento.E é na contramão do silenciamento que os dois filmes esforçam-se para narrar, cada um a seu modo, recortes distintos de um mesmo tempo.Seja pesando a mão, ou optando pelas cores delicadas e iluminação suave,ambas as histórias,ao final de tudo, falam de barbárie. E assim, narrar nunca será suficiente.Será sempre necessário buscar, em nossos baús e memórias,componentes que ajudem a montar esse quebra-cabeças . E, uma vez montada, a imagem sempre nos causará horror, pois ali, no período de 1939 a 1945,veremos refletidas muitas ideias que infelizmente ainda trazemos conosco. Está ali,impresso na carne,o pensamento eugênico que sustentou a solução final nazista, mas que continua latente, no imaginário contemporâneo que sustenta que uns são melhores do que outros e portanto,dignos de viver, sob privilégios, políticos,econômicos,culturais.Continuamos a dividir nossos territórios e decidir quem vive e quem morre e a armar nossos soldados para que eliminem o que consideramos “impuro”. Continuamos a justificar nossas mortes em prol de um “bem maior” e a fechar nossos olhos quando vemos o massacre de famílias, crianças,mulheres,idosos, mortos nas linhas de tiro estabelecidas pelo Estado.E ainda tentamos encontrar rótulos nos quais apoiar nossa cegueira, acreditando por vezes que “se nasce bandido”, como antes “se nascia judeu”.Nossas desculpas não melhoraram,passados tantos anos.Tornamos-nos apenas mais cínicos e mais cheios de ferramentas com as quais nos “desinformar”. Resta-nos a arte, particularmente o cinema,não como ferramenta de fazer ver,uma vez que já sabemos que o excesso de luz nem sempre é garantia de compreensão.Ao contrário.As vezes, o cinema, ao utilizar-se de silêncios,de imagens desfocadas,lacunas e subentendidos, faz melhor seu papel de experiência sensível, na qual devemos mergulhar de corpo e alma em busca de respostas. Será então nas brechas do dito em que a narrativa fílmica encontrará seu mais profundo significado.E se o olho,ante o horror,se fecha, restam os ouvidos, a pele,os ossos, que captam a narrativa e a tornam (se estivermos atentos) reflexão e consciência,sobre nós e sobre a (por vezes) inacreditável, realidade que nos cerca.

sábado, 22 de agosto de 2015

Territórios sensíveis- 21/08/2015 - Sobre narrativas, silêncios e, claro, dinossauros



Você sabe a diferença entre o Tiranossauro Rex e o Velociraptor?Pedro sabe. Para o menino, em seus oito anos, o que distingue os dois espécimes de dinossauros é que, enquanto o velociraptor efetua sons para atrair seus semelhantes, o T-Rex não se comunica com ninguém, pois seu instinto malvado o leva a não se relacionar, a não ser para a procriação. Foi assim, com a sapiência de um paleontólogo que Pedro me explicou porque não podia dublar o temido dinossauro, em mais um exercício de linguagem fílmica. E partiu do menino a ideia de fazer uma dublagem, uma vez que questionou qual seria o nome técnico da ação de colocar vozes diferentes em personagens de filmes. Informado que se tratava de dublagem, logo quis associar à sua imagem o som de seus animais mais amados: os dinossauros. Câmera a postos, dinossauro nas mãos, ele efetuou sua mis-èn-cene e logo pediu para ver o resultado. - Gostou Pedro? -Sim! Essa foi a sorridente resposta. É fato que foi necessário um pouco de paciência para chegar até ele, pois Pedro revela sua autonomia em pequenos gestos, como o de responder ou não uma pergunta ou permitir que nos aproximemos dele. Da mesma forma, não aceita realizar qualquer atividade, somente aquelas pelas quais se sente verdadeiramente atraído, no seu tempo próprio de interesse. Já se tornou comum ouvi-lo dizer, para cada um dos educadores que aparecem pela enfermaria:- “Não, não quero agora” e, logo depois, curioso pelo que se vai passar, abandonar sua atividade anterior e prosseguir na nova proposta como entusiasmo e muitos (muitos!) questionamentos. Assim foi nessa sexta-feira. Pra começar, ele não queria ver o filme que havia feito, o mesmo filme em que havia atuado, dirigido e escolhido cada uns dos sons da narrativa. Primeiro vinha o desenho que estava assistindo, o que a equipe considerou muito justo.Fim do desenho, ele chama uma das educadoras para ver o seu filme. Interfere em cada etapa, opinando com propriedade sobre o resultado esperado, critica elementos, pede outros e, no final, gosta do que vê. “-Parece até filme de verdade”, exclama, felicíssimo!Uma vez aberta a porta, não há limite para a quantidade de filmes que Pedro quer ver. Ele vê todos, concentrado e em silêncio, sem despregar os olhos da tela, mesmo que, vez por outra, alguns elementos estranhos se unam à narrativa do filme, como as silhuetas dos profissionais de saúde que vem checar seus aparelhos. Mas nada se compara a sua expressão de felicidade quando pede que se coloque seu filme predileto, Jurassic Park. Ele comenta cada segundo, da abertura do DVD às primeiras cenas, chamando insistentemente a mãe, semi-adormecida do seu lado, para ver o filme com ele. Felicidade que não se altera, mesmo que ele tenha que ser interrompido para lanchar, ou para que confiram as informações nos aparelhos que o mantém vivo. Da mesma forma, mesmo que veja filmes repetidos, escolhidos no cardápio das atividades de cinema, seu rosto se mantém impassível,imerso na história, seus olhos ligeiramente arregalados quando vê algum elemento que lhe chama atenção. Hoje Pedro tem um companheiro, Gabriel, que em seus quatro anos resiste o quanto pode a manter-se quieto em sua cama. Sob os apelos da mãe,escolheu um filme para ver, “Ernesto no país do futebol” e então sossegou. Ao longo do filme os dois rostinhos não desviaram um só minuto da tela, acompanhando as evoluções de meninos brasileiros e argentinos, que disputavam um jogo de futebol. Tão concentrado estava Gabriel que nem ao menos notou quando a mãe saiu por um momento, tanta a conexão criada com o filme, como se o ambiente hospitalar, transformado em sala de cinema peculiar, fosse aos poucos convocando cada sentido dos meninos, trazendo seus olhos para frente da tela e vinculando-os às narrativas. Aqui os territórios de sensibilidade vão pouco a pouco se constituindo diante de nossos olhos, quando as histórias vistas e vivenciadas trazem um recorte de mundo, um personagem diferente, que se mistura ao cotidiano dos meninos. O cinema nesse ambiente é quase como uma alfabetização de sentidos, um espaço que se cria entre pessoas, culturas e narrativas, que as refazem silenciosamente, a cada filme visto. Também eu me refaço a cada dia, a cada experiência, traçando novos mapas de observação. Assim, novos recortes sensíveis se reorganizam, convocando meu olhar e sensibilidade para além do filme, mas para o espaço em que este é exibido e para os sujeitos que ali estão. Há múltiplos elementos que se relacionam e interações ainda não desvendadas, como os profissionais que interagem com os pacientes, não na ação técnica da necessidade, mas no percurso afetivo, de um brinquedo que se traz, em uma conversa retomada. Por trás dos afazeres que se encarregam de garantir a permanência da vida, há portas que se abrem,quando profissionais e pacientes se encontram, conversam e reforçam laços afetivos e portas que também se fecham, na constatação de que não é possível a um só tempo abarcar toda a complexidade do cenário. Há sempre o silêncio e o inexplorado, aquilo que não se ousa compreender, como duas crianças, que dormiam enquanto ali estávamos, sem que ninguém estivesse com elas. Uma delas era uma menina de aparentes seis anos, cujo pequeno corpo tremia, enrolada em seu cobertor rosa. Frio?Medo?Enfermidade? Tudo isso junto, talvez. O fato é que estava só em uma enfermaria, sem responsável que a acompanhasse, como informou a médica, pesarosamente. E então enxergo subitamente a enormidade daquele espaço, onde diferentes histórias se cruzam. Há silêncios e dores que não podem ser minimizados pela simples proposta de atividades e ausências que o filme não pode exterminar. É preciso ir além, pensando em formas de fazer a experiência sensível chegar até essa criança, não para que a vivência fílmica se torne transformadora, critica ou ética, mas para que seu cotidiano se torne mais humano, preenchido de alguma forma de afeto.Essa talvez seja a tarefa mais básica, mas também a mais importante a ser realizada.

domingo, 9 de agosto de 2015

Territórios sensíveis- o pequeno cineasta



Pedro é um pequeno cineasta. Em seus oito anos, já sabe dividir uma história em pedaços, pensar em cada etapa do roteiro e acrescentar elementos para dar mais emoção à narrativa.Além de cineasta, Pedro tem mais duas paixões: filmes de terror..E dinossauros!
Costuma dizer que ninguém sabe mais de dinossauros do que ele. Realmente, o menino não somente enumera uma dezena de nomes diferentes, quanto cria os que não consegue nomear. Não satisfeito, desenha heróis que são metade dinossauro, metade gente.
Hoje, Pedro quis fazer um filme. Ele,parou, pensou, coçou a cabeça até descobrir,no fundinho da memória, um sonho que envolvia tubarões, colares, a morte da tia e,claro,dinossauros.Com um papel na mão,ele explicou claramente o que queria:dois dinossauros, que travaram uma luta de vida e morte.Levaram-no até a câmera.Ele pediu uma cadeira ,das de diretor, com nome nas costas.Deram-lhe a cadeira. Então ele pediu a claquete. Espanto geral.Mas como esse menino tão pequeno sabe o que é uma claquete?
- Sei sim, disse Pedro. Vi num filme. E serve para cortar os filmes em partes. Os adultos perto dele emudeceram de espanto. Mas havia um filme a ser feito. Pedro sentou-se, pediu que lhe ajustassem o tripé, colocou a câmera no ângulo que lhe pareceu correto e recomendou ao ator a forma como ele devia entrar. Sim, Pedro tinha um elenco em seu filme, formado de um adulto que seria regiamente remunerado pelo cachê que o concentrado diretor foi buscar à gaveta mais próxima: uma bala de café.
Ajustados os aparelhos, ensaiado o ator (o diretor deixou claro que não queria usar bonecos como personagens. Queria o uso de sombras projetadas pela luz em um biombo de tecido). E assim foi. Quando tudo estava pronto no set ele ergueu as mãos, bateu palmas e disse: ação! Em poucos minutos, fora gravada a primeira cena. Então Pedro se levantou, postou-se atrás do biombo para representar o segundo personagem e novamente comandou a claquete:Ação!
Cena filmada, o diretor quis ver o resultado e gostou do que viu. Então, categoricamente, perguntou:onde meu filme vai passar?Quando disseram que poderia ser enviado para um festival que exibia filmes em praças, ele interrompeu imediatamente:- Não, não quero praças, quero uma sala, de cinema. Grande,escura,cinema mesmo sabe?
Ante o silêncio de todos (aqueles silêncio típico dos adultos quando ouvem grandes verdades das crianças), Pedro pagou o cachê do ator e voltou pra sua cama, feliz com sua obra, não sem antes ouvir a promessa de que teria seu filme editado e entregue na semana que vem.
Ele estará na mesma cama na semana que vem, que por acaso é dia de seu aniversário. E estará na próxima e na próxima também. Pedro é mais um dos pacientes internados na enfermaria do Hospital Universitário. Sua locomoção depende da boa vontade de alguém que caminhe a seu lado, carregando os aparelhos que o mantém vivo. Foi assim que dirigiu, ensaiou e atuou .
Pedro acabou de fazer o segundo filme. O primeiro, intitulado por ele “Pedro no CTI”, foi muito mal recebido pelo público, seus parentes e médicos, que não entendiam porque o menino queria contar em um filme seu cotidiano no hospital, em vez de valer-se da ficção. Ele respondeu, imediatamente:me deixem contar minha história.

domingo, 12 de julho de 2015

Crítica sobre o Filme :A Vida secreta das Palavras,ou a coragem de permanecer a descoberto



Qual é o caminho entre o eu e o outro?Seria necessário construir uma ponte ou derrubar os muros entre nós e o mundo?De que seriam feitos cada um desses obstáculos, que convenientemente traçamos?Seria de nossas dores e máscaras com que nos perdemos entre o que nos é essencial e o convencionalmente aceito?Para fora, permanecemos em estado de apatia, respondendo com sorrisos tímidos aos que nos perguntam (os educados) se vamos bem. Por dentro,ante tantas dores, persistimos imersos em dores, destruídos,incapazes de prosseguir nossa narrativa. Em alguns momentos, sob o mais absoluto acaso, alguma coisa acontece e somos confrontados com a possibilidade do outro. O que fazer?Fugir correndo, enquanto ainda temos pernas ou respirar fundo e estender a mão?Este é o preâmbulo do filme espanhol Vida Secreta das Palavras(COIXET,2005) que conta a história de Josef e Hannah e o caminho em direção a eles mesmos e ao outro. Inicialmente, sob o aparentemente hermético roteiro de Isabel Coixet, não é possível compreender a protagonista, uma mulher de seus 30 anos , sociopata e completamente alheia ao mundo exterior, sem paixões ou desejos localizáveis durante as primeiras cenas, cuja fotografia plena de tons de cinza exacerba o vazio interior da personagem. E é assim que, em um desvio confuso de roteiro, que Hannah tira férias e vai parar na plataforma de petróleo onde Josef trabalha e acabara de sofrer um acidente que o deixa temporariamente cego.É na enfermaria onde os dois travam contato, comunicando-se apenas pelo contato das mãos de Hannah,que é enfermeira, no debilitado corpo de Josef e pelas raras palavras que ela deixa escapar ante a insistência de Josef.Aos poucos, cria-se um laço, onde o público percebe que não é apenas o corpo de Josef que esta destruído, mas também o de Hannah.Despojados de qualquer defesa, os personagens se aproximam e se apaixonam.Mais do que isso.Na mais bela cena do filme, Hannah rompe o silêncio e confessa a Josef as intermináveis torturas que sofrera durante a Guerra dos Balcãs . Assim, desnudos corpo e alma ao paciente, a personagem mostra-se por inteiro. Ao perceber a intensidade do sofrimento da enfermeira, Josef se comove e os dois aproximam-se, reconhecendo-se sem máscaras. Uma bela cena, contudo não é só de romance que o filme fala, mas dos processos existenciais inerentes a cada um de nós, sujeitos sempre em construção. Assim são todos os personagens da plataforma, seres que,segundo um dos encarregados do local, “preferem ser deixados em paz”. Seria esse o caminho mais fácil ante o assustador percurso até o outro?O roteiro prefere deixar em aberta tal questão, deixando que penetremos o interior de cada personagem, suas escolhas e incoerências, paixões e pequenos prazeres, recolhidos em um canto isolado do planeta no meio do mar. Em algum momento, um acontecimento qualquer rompe a bolha que cada um criou para si e permite vislumbrá-los sem subterfúgios, desnudos e frágeis, incompletos, arriscando, em uma palavra ou gesto, chegar até o outro. Mais do que falar de encontros desencontros, A vida secreta das palavras, ainda que tenha algumas falhas de edição e roteiro (como cortes pesados e sem sentido e desenvolvimento previsível em algumas cenas) parece revelar, por trás da cortina cotidiana, fragmentos de existência comum, cotidiana e exatamente por isso, bela. Ao final,metaforicamente, há o reconhecimento de que estamos em alguma medida todos marcados pelas dores e incompletudes da vida,fragilizados em nossos corpos, queimados, destruídos, propensos a mergulhar no interior absoluto de nossas existências e ali permanecer para todo sempre. Por cima de tudo, a pele que vestimos para os que nos veem de longe não deixa ver quase nada de nosso,tantas são as defesas que nos impingimos..Felizmente cabe ao imponderável a tarefa de perscrutar em nosso corpo um fragmento de alma a descoberto e , ante nosso assombro, arrancar da carne a pele, à sangue frio.E então estamos ali, expostos, em sangue e dores.Se formos fortes(aparentemente)correremos em desabalada carreira, procurando tamponar as feridas com todas as máscaras possíveis que encontrarmos pela frente. Entretanto, se admitirmos nossa fragilidade, perceberemos sob o corpo exposto a pulsação de uma vida inexplicavelmente mais bela, porque efetivamente nossa.É preciso,contudo ter a coragem de permanecer a descoberto,sempre.




Pra saber mais sobre a Guerra dos Balcãs:
Mundo balcãs

Sobre a Guerra dos Balcãs

domingo, 18 de janeiro de 2015

indicados ao Oscar 2015- Teoria de Tudo: entre a arte e a ciência





De todas as características do cinema, há uma em particular que o aproxima mais especificamente da magia do que da técnica: a arte de manipular o tempo. Seja através de equipamentos,estratégias,sintaxes ou apenas sob a batuta sensível do diretor e do roteirista,mais do que uma forma de contar histórias, o que o cinematógrafo trouxe, na evolução que iniciou-se entre Lumière e Meliès, foi uma perspectiva de tentar recortar, esticar ou encurtar fragmentos de vida humana.Presos aos limites dos planos em sucessão, nos enquadramentos pensados pelo diretor( em constante diálogo com os sentimentos do roteirista) fazer cinema,é,em alguma medida, tocar a face do divino que há no universo e tangenciar a linha do tempo que permeia a vida de cada um de nós. Além disso, mais do que qualquer outra forma de arte, a narrativa fílmica apoia-se desde sempre na firme mão da ciência, seja quando promove o milagre de imprimir em película as gradações da luz que delineia o mundo que podemos ver, seja na possibilidade de reproduzir-se em espaço e tempo, avançando na história e tornando-a outra à medida que absorve as evoluções tecnológicas e as torna palavras imagéticas, forma de narrar. Da montagem ao aumento do número de quadros por segundo, passando pelo Cinema 3,4,5D até os mais avançados projetores digitais, a sétima arte tem se esmerado na tarefa de brincar com o tempo e até,ocasionalmente,ressuscitar os mortos. Talvez por essa razão, na adaptação do livro Teoria de Tudo, que conta a história do cientista inglês Stephen Hawking, há uma forma específica de contar a história do genial professor que prima pela minuciosa escolha do entalhe perfeito, a iluminação precisa, o enquadramento exato com os quais se abre a janela para a intimidade do personagem. Assim é que em quase todas as cenas há uma escolha de resultados estéticos e narrativos magníficos, de uso de filtros, e manipulações de foco, de modo a, em alguns momentos, parecer que a câmera mergulha na própria consciência de Hawking e de sua companheira, Jane. Logo no início do filme o personagem principal, um jovem estudante de Doutorado em física, é confrontado com o desafio de tentar provar as leis fundamentais que regem o universo, intento que consegue realizar, de forma brilhante. Mas não é somente no campo da ciência que o pesquisador mergulha no desconhecido. É também nesse momento que ele conhece Jane,estudante de letras,com quem ficará casado por quase 30 anos.É com grande delicadeza que o roteiro propõe o encontro de duas pessoas que se tornariam grandes cientistas.Stephen,ateu,físico, encantado pela estudante de poesia medieval,Jane,vinda de uma família de católicos fervorosos.Entre Deus e a ciência estabelece-se um diálogo através do amor dos estudantes,amor que é posto à prova devido à grave doença que acomete Hawking, fato que é de conhecimento geral. Antes, o cientista consegue estabelecer um tema de estudo sobre o tempo e a origem do universo, provando sua teoria na tese de doutorado que defende em Cambridge. Neste momento o filme do diretor James Marsh mergulha na sutileza da linguagem cinematográfica, narrando com rara poesia o momento do insight de Hawking enquanto contemplava uma xícara de café. Enquadrado em big close, a espuma do café, em espiral, subitamente começa a inverter seu movimento, pressupondo o instante onde o cientista provavelmente conseguiu capturar a ideia-chave para construir suas teorias. É também com a mesma sutileza que Hawking deixa cair objetos no chão ou tropeça nas próprias pernas, sem que seja necessário empregar nenhum tipo de auto-explicação para que o público compreenda em seus gestos os primeiros sintomas da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA),doença que o acometeu e com a qual convive até hoje. Sobre a interpretação de Eddie Redmayne cabe uma nota: torna-se lugar comum falar sobre o absurdo empenho deste em retratar um Hawking brilhante, irônico, apaixonado. A veracidade de sua entrega ao papel é tamanha que em alguns momentos parece não haver distanciamento entre ele e o personagem, fazendo o público crer que também está acometido de esclerose. E quando seus braços e mãos se torcem e as pernas não obedecem mais, sobram aos olhos e poucos músculos do rosto a tarefa de dar peso dramático á narrativa. É o suficiente.Com apenas essas poucas ferramentas é possível enxergar as sutilezas das emoções distintas vivenciadas pelo personagem, seja defendendo sua tese de doutorado, seja ao brincar com os filhos ou mesmo ao se encantar pela enfermeira que seria sua segunda esposa.Em nenhum momento o filme exagera ao carregar nas cores do drama,embora exista muito drama na biografia de Hawking.Para além de um mártir,o que poderia ser um caminho fácil,dadas as circunstâncias, há a escolha de compor com delicadeza uma narrativa poética e sensível, abusando dos filtros em que Hawking é retratado como essencialmente humano.Em nenhum momento do filme há julgamentos ou defesas,deixando bem claro que cada cena foi uma escolha narrativa e não tem a pretensão de apenas registrar os fatos. Ao contrário, Teoria de Tudo é, antes de qualquer coisa, uma poesia visual sobre a relação fundamental entre arte e ciência, imprescindíveis para que se possa fazer cinema, mas também necessárias para que se possa alcançar a essência do universo. Entre a física e a arte sobressai a escolha pelo amor, que perpassa todos os momentos dos personagens até chegar em uma das cenas finais, onde Hawking e Jane, juntos nos jardins da Rainha da Inglaterra, contemplam o que ,segundo o cientista,parece ser sua maior obra: os três filhos, já grandes. Tecendo com cuidado cada plano,o colossal esforço de equipe e de Redmayne e as escolhas estéticas dos diretores de fotografia e arte está a belíssima trilha sonora de Johann Jóhannsson. Sejam diegéticas ou não ( em vários momentos do filme o cientista ouve Wagner, sua grande paixão), as músicas parecem conduzir o público para um estado de reflexão, erguendo seus olhos para o céu e pensando sobre as misteriosas engrenagens que compõem o universo, fato reforçado nos créditos finais, onde a belíssima música de encerramento mescla-se à imagens de galáxias, constelações e corpos celestes. Neste último momento, o filme parece unir a magia estética dos astros aos mistérios que as ciências tentam explicar. Em um último plano todas as estrelas reúnem-se no globo ocular do cientista,aproximando, sob o feitiço do cinema, ciência e arte, amor e razão .Para cada um de nós a escolha pelo divino pode recair por um ou alguns desses elementos.Segundo Teoria de Tudo, o segredo estaria no equilíbrio perfeito de cada um, assim na arte como na vida.


Pra saber mais:

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-222221/
Trilha sonora original:
https://www.youtube.com/watch?v=3oRMtvwYz80

sábado, 15 de fevereiro de 2014

a profusão dos sentidos em A grande beleza

Assistindo o filme A grande Beleza hoje me dei conta da veracidade da frase de Walter Benjamin sobre o cinema, quando afirma que o filme se destaca de todas as demais formas de arte devido à intensidade das experiências que engendra (BENJAMIN, 2012). De fato, se um adjetivo pode ser aplicado ao filme de Paolo Sorrentino, é este: intenso... Desde a primeira sequência, um travelling que percorre todas as camadas da cena, A grande beleza revela-se de uma força estética inigualável, seja pelo composição dos quadros,a luminosidade de cada cena, o uso de elementos de figurino e de objetos de cena que convidam ao deleite dos olhos e a trilha sonora,poderosa. Já nos primeiros minutos, conhecemos Jep, o angustiado escritor/jornalista,em sua efêmera e vazia vida de socialite.Em suas festas intermináveis, os personagens mais grotescos se sucedem, envolvidos em vidinhas medíocres e pensamentos idem.Não é por acaso que a escolha do figurino da grande maioria deles gira em torno de preto e branco.Não há cor ali.Só o desmedido Nada. È em Jep que se vislumbra a busca dar cor no mundo, a essência, algo que ele mesmo não encontra há anos, desde a publicação de seu primeiro (e último romance) e o encontro com sua maior paixão. É nos ecos da intensa experiência que vivenciou, que Jep encontra sentido para sua existência frívola,cujo rumo ele decerto já perdeu quase que totalmente.Em vez disso, caminha ao largo das ruas de Roma, procurando a beleza com que retornar ao processo criativo abandonado,como um flanêur que sai em busca de emoções. Entretanto Jep somente se depara com o vazio, a frivolidade e a superficialidade dos seres humanos com os quais convive.. É interessante perceber que, para além da imagem,o som também busca desequilibrar o público,alternando-se de médio a alto, em andamentos acelerados, que vão do canto clássico mais profundo a um erguer-se súbito até culminar em uma batida eletrônica, instintivamente sexual, dando o ritmo aos corpos que se movem na tela. Ao mesmo tempo,os personagens,em suas caras e bocas exageradas, ,despem seus corpos e seu vazio interior enquanto Jep escarnece de todos e a cidade de Roma assiste a tudo,impávida, imutável,eterna.
Há uma preocupação estética quase doentia em cada sequência, seja na textura da luminosidade dos planos, na escolha dos figurinos e na composição das cenas, o que às vezes, quase esbarra no non sense. Mas ao final,há um sentido interno ao filme, uma busca que se revela na busca do escritor/protagonista e que amarra cada parte do filme.Sim, os seres humanos são frívolos,no sense, superficiais e frágeis.Sim, as relações humanas são efêmeras.Sim, a essência está perdida,quase que totalmente. Mas quando parece que o filme quer lançar o espectador no mais absoluto desespero, ou no ar blasé de Jep, a quem nada surpreende, eis que surge o estalo, o ponto fundamental, a grande beleza buscada: a vida. Esta mesma vida que escapa por entre os minutos do cotidiano e as amarras das convenções sociais.Esse minuto de silêncio e escuro do qual fala Jep,quando finalmente consegue voltar a escrever.A essência.Então percebemos o que a desvairada câmera de Sorrentino queria registrar:o essencial,invisível na superficialidade,mas aparente a todos aqueles que mergulharem de cabeça no filme . Trata-se de uma experiência de todos os sentidos, visuais, sonoros, táteis, olfativos e afetivos. E,ao final,já nos créditos,quando ainda estamos sob o impacto da Grande beleza, a música inicial acompanha um passeio da câmera por Roma,em toda sua magnitude, amarrando um a um,todos os estímulos provocados pelo filme.É impossível resistir às lagrimas e sair do cinema indiferente,uma vez que a grande beleza provoca uma revolução definitiva em nossos sentidos,que tornam-se mais apurados,mais sensíveis,a partir dessa magnífica e inesquecível aula de linguagem cinematográfica, como uma catarse que proporciona o acesso a níveis nunca antes imaginados de experiência estética.