domingo, 18 de janeiro de 2015

indicados ao Oscar 2015- Teoria de Tudo: entre a arte e a ciência





De todas as características do cinema, há uma em particular que o aproxima mais especificamente da magia do que da técnica: a arte de manipular o tempo. Seja através de equipamentos,estratégias,sintaxes ou apenas sob a batuta sensível do diretor e do roteirista,mais do que uma forma de contar histórias, o que o cinematógrafo trouxe, na evolução que iniciou-se entre Lumière e Meliès, foi uma perspectiva de tentar recortar, esticar ou encurtar fragmentos de vida humana.Presos aos limites dos planos em sucessão, nos enquadramentos pensados pelo diretor( em constante diálogo com os sentimentos do roteirista) fazer cinema,é,em alguma medida, tocar a face do divino que há no universo e tangenciar a linha do tempo que permeia a vida de cada um de nós. Além disso, mais do que qualquer outra forma de arte, a narrativa fílmica apoia-se desde sempre na firme mão da ciência, seja quando promove o milagre de imprimir em película as gradações da luz que delineia o mundo que podemos ver, seja na possibilidade de reproduzir-se em espaço e tempo, avançando na história e tornando-a outra à medida que absorve as evoluções tecnológicas e as torna palavras imagéticas, forma de narrar. Da montagem ao aumento do número de quadros por segundo, passando pelo Cinema 3,4,5D até os mais avançados projetores digitais, a sétima arte tem se esmerado na tarefa de brincar com o tempo e até,ocasionalmente,ressuscitar os mortos. Talvez por essa razão, na adaptação do livro Teoria de Tudo, que conta a história do cientista inglês Stephen Hawking, há uma forma específica de contar a história do genial professor que prima pela minuciosa escolha do entalhe perfeito, a iluminação precisa, o enquadramento exato com os quais se abre a janela para a intimidade do personagem. Assim é que em quase todas as cenas há uma escolha de resultados estéticos e narrativos magníficos, de uso de filtros, e manipulações de foco, de modo a, em alguns momentos, parecer que a câmera mergulha na própria consciência de Hawking e de sua companheira, Jane. Logo no início do filme o personagem principal, um jovem estudante de Doutorado em física, é confrontado com o desafio de tentar provar as leis fundamentais que regem o universo, intento que consegue realizar, de forma brilhante. Mas não é somente no campo da ciência que o pesquisador mergulha no desconhecido. É também nesse momento que ele conhece Jane,estudante de letras,com quem ficará casado por quase 30 anos.É com grande delicadeza que o roteiro propõe o encontro de duas pessoas que se tornariam grandes cientistas.Stephen,ateu,físico, encantado pela estudante de poesia medieval,Jane,vinda de uma família de católicos fervorosos.Entre Deus e a ciência estabelece-se um diálogo através do amor dos estudantes,amor que é posto à prova devido à grave doença que acomete Hawking, fato que é de conhecimento geral. Antes, o cientista consegue estabelecer um tema de estudo sobre o tempo e a origem do universo, provando sua teoria na tese de doutorado que defende em Cambridge. Neste momento o filme do diretor James Marsh mergulha na sutileza da linguagem cinematográfica, narrando com rara poesia o momento do insight de Hawking enquanto contemplava uma xícara de café. Enquadrado em big close, a espuma do café, em espiral, subitamente começa a inverter seu movimento, pressupondo o instante onde o cientista provavelmente conseguiu capturar a ideia-chave para construir suas teorias. É também com a mesma sutileza que Hawking deixa cair objetos no chão ou tropeça nas próprias pernas, sem que seja necessário empregar nenhum tipo de auto-explicação para que o público compreenda em seus gestos os primeiros sintomas da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA),doença que o acometeu e com a qual convive até hoje. Sobre a interpretação de Eddie Redmayne cabe uma nota: torna-se lugar comum falar sobre o absurdo empenho deste em retratar um Hawking brilhante, irônico, apaixonado. A veracidade de sua entrega ao papel é tamanha que em alguns momentos parece não haver distanciamento entre ele e o personagem, fazendo o público crer que também está acometido de esclerose. E quando seus braços e mãos se torcem e as pernas não obedecem mais, sobram aos olhos e poucos músculos do rosto a tarefa de dar peso dramático á narrativa. É o suficiente.Com apenas essas poucas ferramentas é possível enxergar as sutilezas das emoções distintas vivenciadas pelo personagem, seja defendendo sua tese de doutorado, seja ao brincar com os filhos ou mesmo ao se encantar pela enfermeira que seria sua segunda esposa.Em nenhum momento o filme exagera ao carregar nas cores do drama,embora exista muito drama na biografia de Hawking.Para além de um mártir,o que poderia ser um caminho fácil,dadas as circunstâncias, há a escolha de compor com delicadeza uma narrativa poética e sensível, abusando dos filtros em que Hawking é retratado como essencialmente humano.Em nenhum momento do filme há julgamentos ou defesas,deixando bem claro que cada cena foi uma escolha narrativa e não tem a pretensão de apenas registrar os fatos. Ao contrário, Teoria de Tudo é, antes de qualquer coisa, uma poesia visual sobre a relação fundamental entre arte e ciência, imprescindíveis para que se possa fazer cinema, mas também necessárias para que se possa alcançar a essência do universo. Entre a física e a arte sobressai a escolha pelo amor, que perpassa todos os momentos dos personagens até chegar em uma das cenas finais, onde Hawking e Jane, juntos nos jardins da Rainha da Inglaterra, contemplam o que ,segundo o cientista,parece ser sua maior obra: os três filhos, já grandes. Tecendo com cuidado cada plano,o colossal esforço de equipe e de Redmayne e as escolhas estéticas dos diretores de fotografia e arte está a belíssima trilha sonora de Johann Jóhannsson. Sejam diegéticas ou não ( em vários momentos do filme o cientista ouve Wagner, sua grande paixão), as músicas parecem conduzir o público para um estado de reflexão, erguendo seus olhos para o céu e pensando sobre as misteriosas engrenagens que compõem o universo, fato reforçado nos créditos finais, onde a belíssima música de encerramento mescla-se à imagens de galáxias, constelações e corpos celestes. Neste último momento, o filme parece unir a magia estética dos astros aos mistérios que as ciências tentam explicar. Em um último plano todas as estrelas reúnem-se no globo ocular do cientista,aproximando, sob o feitiço do cinema, ciência e arte, amor e razão .Para cada um de nós a escolha pelo divino pode recair por um ou alguns desses elementos.Segundo Teoria de Tudo, o segredo estaria no equilíbrio perfeito de cada um, assim na arte como na vida.


Pra saber mais:

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-222221/
Trilha sonora original:
https://www.youtube.com/watch?v=3oRMtvwYz80

sábado, 15 de fevereiro de 2014

a profusão dos sentidos em A grande beleza

Assistindo o filme A grande Beleza hoje me dei conta da veracidade da frase de Walter Benjamin sobre o cinema, quando afirma que o filme se destaca de todas as demais formas de arte devido à intensidade das experiências que engendra (BENJAMIN, 2012). De fato, se um adjetivo pode ser aplicado ao filme de Paolo Sorrentino, é este: intenso... Desde a primeira sequência, um travelling que percorre todas as camadas da cena, A grande beleza revela-se de uma força estética inigualável, seja pelo composição dos quadros,a luminosidade de cada cena, o uso de elementos de figurino e de objetos de cena que convidam ao deleite dos olhos e a trilha sonora,poderosa. Já nos primeiros minutos, conhecemos Jep, o angustiado escritor/jornalista,em sua efêmera e vazia vida de socialite.Em suas festas intermináveis, os personagens mais grotescos se sucedem, envolvidos em vidinhas medíocres e pensamentos idem.Não é por acaso que a escolha do figurino da grande maioria deles gira em torno de preto e branco.Não há cor ali.Só o desmedido Nada. È em Jep que se vislumbra a busca dar cor no mundo, a essência, algo que ele mesmo não encontra há anos, desde a publicação de seu primeiro (e último romance) e o encontro com sua maior paixão. É nos ecos da intensa experiência que vivenciou, que Jep encontra sentido para sua existência frívola,cujo rumo ele decerto já perdeu quase que totalmente.Em vez disso, caminha ao largo das ruas de Roma, procurando a beleza com que retornar ao processo criativo abandonado,como um flanêur que sai em busca de emoções. Entretanto Jep somente se depara com o vazio, a frivolidade e a superficialidade dos seres humanos com os quais convive.. É interessante perceber que, para além da imagem,o som também busca desequilibrar o público,alternando-se de médio a alto, em andamentos acelerados, que vão do canto clássico mais profundo a um erguer-se súbito até culminar em uma batida eletrônica, instintivamente sexual, dando o ritmo aos corpos que se movem na tela. Ao mesmo tempo,os personagens,em suas caras e bocas exageradas, ,despem seus corpos e seu vazio interior enquanto Jep escarnece de todos e a cidade de Roma assiste a tudo,impávida, imutável,eterna.
Há uma preocupação estética quase doentia em cada sequência, seja na textura da luminosidade dos planos, na escolha dos figurinos e na composição das cenas, o que às vezes, quase esbarra no non sense. Mas ao final,há um sentido interno ao filme, uma busca que se revela na busca do escritor/protagonista e que amarra cada parte do filme.Sim, os seres humanos são frívolos,no sense, superficiais e frágeis.Sim, as relações humanas são efêmeras.Sim, a essência está perdida,quase que totalmente. Mas quando parece que o filme quer lançar o espectador no mais absoluto desespero, ou no ar blasé de Jep, a quem nada surpreende, eis que surge o estalo, o ponto fundamental, a grande beleza buscada: a vida. Esta mesma vida que escapa por entre os minutos do cotidiano e as amarras das convenções sociais.Esse minuto de silêncio e escuro do qual fala Jep,quando finalmente consegue voltar a escrever.A essência.Então percebemos o que a desvairada câmera de Sorrentino queria registrar:o essencial,invisível na superficialidade,mas aparente a todos aqueles que mergulharem de cabeça no filme . Trata-se de uma experiência de todos os sentidos, visuais, sonoros, táteis, olfativos e afetivos. E,ao final,já nos créditos,quando ainda estamos sob o impacto da Grande beleza, a música inicial acompanha um passeio da câmera por Roma,em toda sua magnitude, amarrando um a um,todos os estímulos provocados pelo filme.É impossível resistir às lagrimas e sair do cinema indiferente,uma vez que a grande beleza provoca uma revolução definitiva em nossos sentidos,que tornam-se mais apurados,mais sensíveis,a partir dessa magnífica e inesquecível aula de linguagem cinematográfica, como uma catarse que proporciona o acesso a níveis nunca antes imaginados de experiência estética.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Album de Familia-Visitando o caos- crítica


Há um tempo eu dizia AQUIdepois de ver a peça 'Viver sem Tempos Mortos', com Fernanda Montenegro e texto de Simone de Beauvoir, que o ofício fundamental do ator era não estar lá, uma vez que quanto menos de si estivesse presente mais profundo seria o mergulho no personagem. Hoje,depois de assistir 'Álbum de família', filme que reúne as atrizes Meryl Streep e Julia Roberts, penso que talvez exista uma ponderação a ser feita em minha afirmativa anterior.Ou talvez Meryl Streep seja inclassificável.É fato que, a cada vez que a atriz atravessa uma cena., parece concentrar todos os olhares em si e parece obvio supor que sim, há muito de Meryl em cada atuação, mas é como se esta se fundisse, se integrasse ao personagem de modo intrínseco,visceral, rasgando todas as mascaras de artificialidade e literalmente sendo exatamente quem diz ser a cada filme.Em Álbum de Família, produção de 2013 que foi baseada na obra de Tracy Letts,que escreveu a peça originária, numa das primeiras sequências, a câmera passeia por uma casa antiga, mal iluminada,como se a luz há muito não adentrasse os cômodos e o tempo envelhecesse a todos que cruzassem sua porta.Em off, o ator Sam Shepard começa narrando um poema de T.S Eliott a uma assustada mocinha, Johna, recém contratada como governanta da casa.Enquanto explica que ele e a mulher fizeram um pacto, onde um bebe e outro se entrega aos remédios, ouve-se um barulho ao fundo e há um corte rápido para a escada da sala.Logo, Meryl adentra a cena, intempestivamente, como a personagem Violet, como um raio que atravessa a narrativa.Cabelos curtos e brancos e ausência total de maquiagem, sua presença é um soco no estomago de todos que acompanham a carreira da atriz. Mas não é só Meryl Streep que está ali, preenchendo cada centímetro de tela,. É Violet, intensa, angustiada, visceral, alternando momentos de doçura com dolorosas expressões, como se lhe acometesse um sofrimento intenso, logo disfarçado com um superficial sorriso. É quase impossível acompanhar seu processo de transformação, mas o resultado é belíssimo, angustiante, de tirar o fôlego.Violet é uma enlouquecida mãe de três filhas, que contraiu câncer na boca e passou a tomar remédios, a cada dia mais, para controlar a dor.Em paralelo, seu marido Steve mergulhava no álcool e no silêncio eloquente da literatura, cada dia mais silenciosamente, até que se retira de cena no que parece ser um suicídio.Há uma grande comoção familiar e todos os membros da família reúnem-se na casa de Violet para o enterro, inclusive a filha mais velha de Violet, Barbara, interpretada com muita competência por uma Julia Roberts sem maquiagem e com muitos fios de cabelo branco transparecendo.Há em todos os personagens uma preocupação em desnudar o glamour cinematográfico e mostrar os atores em figurinos e iluminação desfavoráveis,como se para aproximá-los do público.Assim está Julia, obrigada a conviver com a insana mãe, que passa todo o tempo provocando-a e proferindo dolorosas verdades à mesa de jantar, constrangendo a todos e levando a família à loucura.Persistem, como em todo núcleo familiar, conflitos internos e segredos, magoas e paixões que se revelam continuamente na mesa de jantar. Á cabeceira entretanto, está Violet, alternando momentos de angustiante fragilidade com simultâneos rompantes de raiva e sarcasmo, sem que o público possa ao menos tomar fôlego.Os personagens também colaboram.São todos revestidos de traumas internos, fragilidades aparentes e pequenos deslizes de caráter que os tornam muito mais verossímeis do que seriam se estivessem travestidos de luzes, maquiagem e atuações herméticas, precisas.


Ao contrário, as cenas são como consultórios de psicoterapia, em que os personagens desnudam seus traumas e atacam-se mutuamente.E há muita munição entre eles.Maridos e mulheres, filhos e pais e irmãs, não resta um pequeno desentendimento que não seja exaustivamente revisitado e exposto entre risos e lágrimas, rasgando o véu das conveniências e desconcertando-os a todos. De sua parte, Julia/Barbara é a mais descontrolada de todas, numa atuação excelente, mas que não tem a visceralidade de Meryl. Ainda assim, as duas se enfrentam,corajosamente, e parece que Meryl é generosa em colocar-se na mesma perspectiva de Julia, nos constantes embates das duas,chegando literalmente às vias de fato. Em determinado momento (ALERTA DE SPOILER), ensandecida depois de ouvir da mãe as mais amargas palavras sobre sua separação, Barbara se lança sobre ela, enfurecida e as duas rolam pelo chão, na sequencia que ilustra o cartaz do filme. È uma cena arrebatadora, tensa,em que realmente vê-se mãe e filha num cruel embate pelo poder, num diálogo quase felliniano, para os amantes do diretor italiano.E em seguida, há uma sucessão de desencontros, distorções morais e conflitos físicos.É como se todos estivessem com os nervos à flor da pele, em pleno estado de crise.Mas ainda há, no caos, espaço para a doçura, seja em breves momentos entre as irmãs Weston, antes que aconteça mais um ataque e um afastamento entre elas e no final,quando a ALERTA DE SPOILER) já ensandecida e abandonada Violet se aproxima de Johna e esta a acolhe.A trilha sonora e a fotografia alternam o caos e a sensibilidade do filme, dando um adequado suporte à narrativa.Há um único porem:na ânsia de promover o caos entre os familiares, uma revelação entre eles que se faz totalmente desnecessária, ante o já consolidado frenesi a que estão entregues os personagens.Me lembrou, felizmente por alguns minutos, um roteiro de novela mexicana.Desnecessário e mal construído plot da narrativa que não compromete o filme, mas não faz justiça a todo o resto.Entretanto, ainda há ao final a grandiosa e absurdamente visceral Streep para nos lembrar,como um sonoro tapa na cara, o que é o cinema, ou o teatro, ou exatamente o que ela faz,seja la o que for, mas que é único, profundo e genial e deve, se ainda resta um resquício de credibilidade em Hollywood, arrebatar mais um Oscar.Não poderia ser diferente.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Da imprevisibilidade

No cinema, como na vida , a linguagem existe além da mera percepção da retina, onde palavras e conceitos escondem o real significado da mensagem, quase sempre reflexo do inesperado. Assim o sentido de uma obra cinematográfica não está em seus diálogos, planos de cena e iluminação, nem tão pouco na ótica do diretor. Por mais se esforce, seu discurso visual habita o plano do objetivo, onde as palavras formadas por cada gesto vão encontrar sentido e significação. Na obra Melinda e Melinda, do diretor W.Allen, os olhos vão captar uma historia comum sobre encontros e desencontros de casais no inicio da maturidade, pressionados sob a obrigatoriedade de fazerem diferença no ciclo social onde convivem e a constatação de que o tempo caminha na contramão das certezas e tudo que se pode fazer é prosseguir. As personagens e dramas sucedem-se na tela em seus discursos previsíveis, sem que exista de fato surpresa ou tragédia no que vivenciam. É apenas vida do outro, em estado de contemplação. No entanto é o instante entre palavras que guarda o sentido da mensagem, não na construção de personalidades factíveis, mas no lexo da subjetividade das relações dos personagens. O cerne do discurso da historia que não consta da sinopse do filme vai falar de contato,de comunicação,do momento em que se percebe o outro e do caráter irrevogável desse evento.Nada mais é preciso do que conectar-se à mesma freqüência de alguém para ser capaz de decodificar a mensagem subjetiva escrita nas entrelinhas das máscaras e convenções, salvas as limitações da moral e da ética de cada um. Perceber o outro é antes de tudo, mergulhar no escuro, num manancial infinito de signos distintos, imprevistos, onde a lógica se abstém de julgamento e os sentidos comuns não compõem interpretação verossímil. É preciso estar distraído para compreender e é nesse viés em que o filme narra sua história. Homens e mulheres atraem-se mutuamente, aproximam-se , relacionam-se e afastam-se sem que se possa conter ou estabelecer parâmetro por mais tentem.É antes o tempo do imprevisível que traça a rota dos acontecimentos. Dar o primeiro passo é arriscar-se ao desconhecido, no terreno da dor ou do prazer. Melinda, a personagem titulo,conhece os dois lados, caminha na linha tênue entre o sim e o não e experimenta a angustia da escolha.Se seu roteiro será comedia ou drama não depende somente dos narradores em perspectiva,confortavelmente sentados num pub filosófico a dissertar sobre lugares comuns ,mas do incerto apelo do imprevisível em sua vida,convidando-a a rir ou chorar.Sentir é inconsciente, agir é um ato de coragem alem da ficção,no terreno do talvez. texto original do blog www.magiaerazao.blogspot.com

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Renoir e a escrita da luz


Desde que tomei conhecimento da estreia de um filme sobre Renoir, me impus como meta fazer o possível para assistir..Afinal,há menos de dois anos tive a oportunidade de me aproximar dos quadros desse pintor e a explosão de cores me encantou profundamente...Sei que há aqueles que menosprezam o impressionismo como arte menor frente a ousadia cubista ou mesmo o suprematismo dos russos,mas ainda que reconheca a importância desses movimentos, não posso deixar de me encantar com o conceito de passagem do tempo que as pinceladas dos impressionistas trazem até nossos olhos quando vislumbramos seus quadros.O que importa,pelo menos para mim,não são a representações,mas as variações de cor e luz que penetram em nossa retina, provocando um contato com uma perspectiva poética do mundo E foi nesse estado de espírito que entrei no Cine Santa para assistir à versão romanceada da historia sobre o pintor francês.Na verdade, o filme fala dos últimos anos da vida de Renoir,quando já idoso,recolhia-se na paradisíaca região de Cote D´azur..So esse pequeno detalhe já me fez entender a magia de suas telas.na verdade,Renoir pintava as nuances de cor e luz que cercavam seu cotidiano,não é por acaso que não lhe faltava inspiração.Mas o filme vai alem.Em uma narrativa leve e poética, mostra as relações do pintor com suas mulheres,cujas formas ele desnudava em suas telas e com a realidade que via em seus olhos já cansados. Há,na obra,um cuidado especial com a fotografia,como não podia deixar de ser e com os aspecto poético da mis-en-cene dos atores.Independente do tom da cena mostrada,é impossível não enxergar quadros imaginários em cada plano mostrado no filme.A camera com certeza ajuda nesse quesito,movendo-se entre corpos e paisagens como a registrar lentamente cada composição do artista. Alem disso,há a personagem Andrée (Christa Theret)de estética irrepreensivelmente próxima aos quadros de Renoir e empatia imediata com o público..E sua proximidade é tanta,que a nudez frontal óbvia que enverga não causa nenhuma estranheza..Afinal não é a ela que observamos,mas a composição da própria obra do pintor,expressa no corpo que exibe...E as demais mulheres,todas, apesar dos tons suaves das telas do artista,dominam a narrativa em quase todo o tempo,entre conflitos e breves momentos de calmaria.São elas que compõem as cenas que serão materializadas na tela do artista e há um evidente mérito da direção de fotografia em registrar nuances de pele e ambiente de forma fugidia,como são de fato as pinturas impressionistas... Cabe somente uma ressalva:o final do filme não obedece a um ritmo próprio de toda a obra, sendo interrompido no clímax da tensão e substituído por uma informação posterior dada em cartela,onde se sugere que houve um reencontro dos personagens e uma posterior separação. Consegui pensar uma dezena de formas mais elegantes de se terminar o filme,inclusive pelo uso daquilo que recentemente aprendi como elipse,o uso da camera em lacunas de tempo e espaço que confere sofisticação à narrativa.Me parece que o motivo para esse lapso não pode ter sido mais medíocre do que custos de produção,o que me impediram de sair totalmente satisfeita do cinema. Renoir não merecia.

domingo, 7 de julho de 2013

A delicadeza do amor

Acabei de assistir o filme “a delicadeza do amor”,com Audrey Tautou e fiquei tão encantada com a atmosfera do filme que tive que escrever.....Para além da fotografia e da atuação de Audrey,o final é lindo,uma metáfora de um encontro entre duas pessoas ,onde uma mergulha na subjetividade da outra.Belíssimo!
Trailer A delicadeza do amor
Obs.:Essa história foi livremente inspirada no filme A delicadeza do amor,de 2011.Qualquer semelhança não terá sido mera coincidência.

No jardim onde Nathalie aguarda, Markus passeia devagar, reencontrando a cada passo restos da infância da mulher que hoje, mãos postas sobre olhos fechados, respira lentamente enquanto conta até 20. A cada momento, nas sombras do jardim, ele vê uma a uma, as meninas que um dia foram a pequena Nathalie, de vestido rodado e laço de fita nos cabelos, colhendo flores no jardim da avó e a vê logo ali, deitada na grama, um livro ao colo e a cabeça a contemplar as nuvens. Erguendo um galho da pequena trepadeira, Markus descobre uma Nathalie adolescente. Pernas pro alto, sonhadoramente,desenhando palavras no diário que está em suas mãos.Na janela a avó chama para o café,mas quem levanta já não é mais uma adolescente, mas uma mulher de seus 20 anos,que puxa pelas mãos um rapaz alto e magro e o apresenta à avó.Ele tem nas mãos uma pequena caixa de veludo azul e a avó,ao contempla-los , sorri. Markus fecha seus olhos e enxerga uma Nathalie mais velha, pálida, que caminha em direção ao canto mais fundo do jardim e se deixa cair na grama , aos soluços.Em suas mãos a mesma caixinha azul e na outra um telegrama, amassado. Em todas , ele vê a mesma mulher que agora vai chegando ao número 17 em sua contagem e espera que ele se esconda, para depois ir procurá-lo. A mesma mulher que ficara viúva jovem e que passara os últimos cinco anos enterrada em seu pequeno escritório e que um dia , sem razão aparente,cruzara com ele no caminho do bebedouro do sétimo andar do prédio em que trabalhavam.Bastara. Ao ouvir o barulho ritmado dos saltos baixos em que ela se equilibrava e contemplar a blusa vermelha que ela vestia,Markus sentiu que a vida se esvaía por entre os segundos que separavam esse momento de todos os outros que vivera. Era ali, num ambiente costumeiro, cotidiano,que os dois se encontravam todos os dias. Mas naquele dia, por estar demasiadamente distraído ou porque o dia estava silencioso e calmo, ou pela temperatura estar amena, foi que ele ouviu plenamente cada um dos ruídos que Nathalie fazia ao caminhar. O som dos saltos, o barulho do plástico das pastas em sua mão, o leve mover-se do tecido da saia comprida e um quase imperceptível som dos joelhos magros dela, que se moviam rapidamente, passo a passo.Dali para o café e o sorriso , o teatro e as caminhadas até o metro,comentando a última peça que assistiram foi um passo.E a cada dia, mais nítidos ficavam os passos, que paravam brevemente para dizer bom dia e retomavam seu caminho.E um dia,na saída do metro,assim sem avisar,as mãos se cruzaram no limite da curva do metro.Medo. Markus desaparecera do escritório por uma semana, para que Nathalie soubesse que tudo estava acabado.Tudo o quê?Se não tinham um caso,se não havia compromisso,como era que reconhecia seu caminhar dentre todos os outros?E assim, sofrendo com a falta daquilo que não tinha,foi que Markus irrompeu da sua sala e ,num esforço gigantesco,chegou até onde Nathalie estava e disse, simplesmente:sim.Ela se assustou, ficou em silêncio,mas logo depois,sorriu. Pegando-o pela mão, levou-o ate o carro dela e abriu a porta. Ele entrou e ela dirigiu em silencio por algumas horas. Logo chegaram a uma cidadezinha próxima e ela estacionou em frente a um velho portão. Era a casa da avó. A velha senhora olhou Markus profundamente por alguns segundos,sorriu para Nathalie e disse:Entrem, vou fazer um café para nós.enquanto passava o café,Nathalie pegou-o pela mão e levou-o até um quintal nos fundos da casa. Então disse: Era aqui que eu passava as minhas tardes desde criança. E ficou em silêncio. E então Markus entendeu:ao leva-lo lá, ela abria uma porta para que ele penetrasse em seu universo interior, erguesse o véu de suas lembranças e compartilhasse com ela cada momento. Viu todas as faces da menina e da mulher que ela fora e mergulhou em cada dor,cada sorriso,cada etapa de construção da pessoa que fechava agora os olhos,na contagem do pique esconde. Tudo que ela fora permanecia ali,em suspensão. Mas por sobre a poeira,intangível,permaneciam os mesmos laços de antes. Ao levá-lo lá,nas profundezas de sua memória,Nathalie abria a janela para o novo e retomava mais uma vez seu caminho pelo jardim.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

momento d.o.c-Linha de Montagem

Linha de montagem é um documentário que caminha pelos passos de Jean Rouch e seu cinema verdade. Ao revelar a imensidão do movimento operário nas greves do abc paulista da década de 80,usa dos artifícios de desconstrução e opacidade,esse último um conceito de Ismail Xavier,para mostrar a luta operária num país ainda imerso numa já hesitante ditadura.Podemos ver o uso explícito dos microfones e captadores de áudio,as vozes dos entrevistadores e as câmeras passeando por entre trabalhadores e policiais.Por vezes,o conflito escapa à representação,quando o câmera é abordado por um policial e tem sua lente ocultada pelas mãos do agente da lei.Em outros momentos,as músicas de Elis Regina e Milton Nascimento dão o tom de um movimento de massas,direcionado com maestria por um barbudo Luis Inácio.Mais do que erguer as cortinas de uma mobilização reivindicatória,Linha de montagem deixa que o público tire suas próprias conclusões sobre o evento sem interferir no julgamento.O toque diferencial do filme fica(lém da felicidade de conseguir captar raras imagens da greve) a cargo da música tema,que confere uma narrativa poética a esse episódio da história onde as lutas entre classes aparecem evidentes e viscerais.Não custa lembrar que o próprio Chico Buarque,ou autor,pertencente aos estratos economicamente favorecidos da sociedade,propõe através da obra um diálogo,um passo a frente em direção a uma sociedade mais justa.

Filme:
Filme Linha de montagem


"Linha linha de montagem
A cor a coragem
Cora coração
Abecê abecedário
Ópera operário
Pé no pé no chão
Eu não sei bem o que seja
Mas sei que seja o que será
O que será que será que se veja
Vai passar por lá
Pensa pensa pensamento
Tem sustém sustento
Fé café com pão
Com pão com pão companheiro
Pára paradeiro
Mão irmão irmão
Na mão, o ferro e ferragem
O elo, a montagem do motor
E a gente dessa engrenagente
Dessa engrenagente
Dessa engrenagente
Dessa engrenagente sai maior
As cabeças levantadas
Máquinas paradas
Dia de pescar
Pois quem toca o trem pra frente
Também de repente
Pode o trem parar
Eu não sei bem o que seja
Mas sei que seja o que será
O que será que será que se veja
Vai passar por lá
Gente que conhece e prensa
A brasa da fornalha
O guincho do esmeril
Gente que carrega a tralha
Ai, essa tralha imensa
Chamada Brasil
Samba samba são Bernardo
Sanca são Caetano
Santa santo André
Dia-a-dia diadema
Quando for, me chame
Pra tomar um mé"Chico Buarque